Não se registra faces (1)

Estudávamos juntos. No colégio que tudo começou. Já fazia uns três meses que namorávamos. Víamo-nos todos os dias, sem falta. Até que chegaram as nossas férias. As viagens com os familiares nos separaram durante duas semanas, uma eternidade naquela fase apaixonada em que vivíamos. A primeira vez sem se ver por tanto tempo assim foi dramatizada demais por nós dois e adorávamos viver dramaticamente, tornava tudo mais Shakespeare, mais amor de verdade. Dois adolescentes.

Quando a encontrei de novo não acreditava na face dela, aquele rosto não era ela, nem a pau! E não havia nenhum outro rosto desenhado na minha memória que lhe servisse. Parecia que a lembrança dela não tinha rosto na minha memória. Fui tomado por uma sensação excessivamente estranha. Lembrei de uma coisa que vira na TV, algum personagem falando em um filme qualquer:

Quando você tenta lembrar do rosto de uma pessoa, não consegue; mas tente lembrar de algo que ela fazia, que você gostava nela, que o rosto lhe vem à mente num instante

Estava ali, parado em frente a minha namorada, uma pessoa que eu amava, beijava, e era como se fosse a primeira vez que eu a visse. Tentava lembrar dela fazendo algo, como a TV indicara, mas não tinha rosto a pessoa que era ela na minha lembrança. Levei três horas do namoro me re-acostumando com o rosto dela. Algo, de certa forma, totalmente novo para mim.

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Bustamante

Texto que escrevi e li como orador dos formandos de 2008 do curso de Comunicação e MultiMeios da PUC/SP

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