Cinco reais e noventa centavos

Começou no dia em que o local estava todo diferente. O pano que cobria uma reforma havia sido tirado e fora revelado um trabalho belíssimo. Nova estrutura, novo sistema, funcionamento e muitas inéditas opções na área de alimentação da puc que agora estava muito aconchegante. Ah, isso a quem gosta de coisas com tendência a chic e bem arrumadas e modernas.

Ele chegou do trabalho doido para almoçar antes de mais uma tarde de aula. Sua vida estava muito satisfatória. Primeiro emprego realmente emprego, primeiro ano na faculdade, amizades novas, muitas amigas principalmente.

Havia passado pela rua que adorava, muitas árvores. Olhava para cima e adorava ver que lá havia tanto verde; em proporções quase iguais com o azul e brancos flutuantes.

Quando chegou a área de alimentação, observou bem. Seus olhos correram pela nova imagem. Se assustou e a madunça pareceu não agradar. Ficara tudo tão chic, seu bandejão estava agora como se fosse um bandejão de luxo suficiente para se instalar no Titanic.

Tinha que se comprar uma ficha para almoçar na nova maneira das coisas funcionarem. Melhor, mecher com dinheiro na hora de montar o prato nunca foi bom. Deu dez reais, era 5,90, a moça do caixa encheu-o de moedas, quando tinha notas para dar. Ele pediu por favor, mas ela negou. Ele ficou com a carteira mais gorda do que já estava e incomodando ao cubo. Mas tudo bem... A que se faz, a que se paga - pensou com raiva.

Aprendeu a lidar com o novo sistema, montaram seu prato. A quantidade de comida do bandeijão parecia ter diminuído, mas o suco era do natural, nunca fora, isso quase compensou. Contudo, não parou de pensar na moça do caixa que o enchera de moedas quando ela tinha possibilidade de não fazer mas fez. Iluminou em sua mente a seguinte idéia: pagar na mesma moeda. Armara tudo na cabeça.

Quando chegou em casa, contou aos amigos o plano. Logo o chão da sala da Happy Ública ficou cheio das moedas que ele economizava. Conseguiu cinco e noventa em moedas de 10 e 5 centávos.

-Lembra de mim - disse.
-Lembro. Tudo bom?
-Tudo sim - sorriu e sentiu o clima simpático que a moça instaurava.
-Você vai...?
-Bandejão.
-Em dinheir...?
-Sim.
-Pode me dar.
-Pare as mãos.
-Ai, meu Deus! Nossa! Nossa! Ai! Você tinha que comprar assim bem agora com a fila grande?
-Eu estou com fome agora. A que se faz a que se paga.
-Tá bom - desistiu e sorriu a moça climatizando agradável a situação. Era o seu terceiro dia de trabalho apenas, estava feliz, ganhando bem, trabalhando em local bonito, com gente jovem, dentro da universidade e sentia que portas poderiam se abrir. Mal sabia ela, felicidades maravilhosas e realizações viriam pela frente.
-Tem certeza que tem 5,90 aqui? - ela perguntou.
-Sim.
-Tá bom - tchuuum - Obrigada, pegue seu ticket. Esse mesmo. Obrigada você. Próximo. Pode vir. Boa tarde.

Ele sentiu-se bastante satisfeito apesar da situação ter sido amena demais se comparada às suas imaginações falando com o gerente, chamando a atenção de todos, subindo na mesa, começando uma revolução para baixar o preço do bandejão, todos o levando no braço, gritando seu nome: "Vitão... Vitão...", aprovariam o seu ato heróico como súditos - enxergava assim.

Comeu, mas não tirou os olhos da moça. Era bonita, porém tinha marcas no rosto. Que ele acertou consigo que, se a moça fosse observada por dez minutos, elas sumiriam da sua capacidade de reparar nas coisas. Tinha um corpão a menina, também. Será que tinha namorado?

No terceiro encontro com ela para comprar sua ficha novamente, pagou em denheiro (notas), recebeu dez centavos de troco e um sorriso que por ter sido muito profissional não lhe agradou. Sentou num lugar apropriado. Observou-a por 30 minutos sem receber um olhar sequer de quem só enxergava clientes e seu bom emprego novo. Mas a colega do caixa ao lado havia percebido a atenção do rapaz e cotevelou a amiga quando ele já havia se levantado e, pondo a bandeja para lavar no lugar certo, se foi mais uma vez. Ele não pode observar a cena da amiga mostrando a moça quem a olhou por longo tempo. Mas, no outro dia, a compra de seu bilhete foi muito mais agradável. A semana se passou e a proximidade bem chegou. Trocaram telefones. Foram felizes por três anos até tudo se acabar.

Comentários

Niara disse…
Sabe, você escreve bem mesmo!! Um dia eu chego la, hehehe!!!
Bjsss e já to separando as coisas que eu tenho que levar, hehe!!!
Débora disse…
Veja até onde vai o espírito humano, se dá ao trabalho de juntar 5,90 de moedas só pra dar "o troco" hahaha. Eu sempre quis pagar coisas com balas.
"Não tenho troco pode levar uma balinha?", se eles podem dizer isso então eu posso "não tenho dinheiro, vou pagar com essas balinhas."
Felipe disse…
e ae vitão... como anda as coisas véio? maior cara que eu não entro aki... mais lendo algumas post, vejo que o cab está como antigamente!!! Nossa cara, não vou entrar na facu agora em agosto.. =(
maior sacanagem.. mais paciencia, quem sabe ano que vem..
bom é isso
fika assim irmão
falowsss
*eg er scintilla disse…
não li o texto *, mas tô passando pra deixar um beijo!

rimou até, o q chamamos de 'rima livre'.

*não li, mas lerei, claro!

te adoro!

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Bustamante

Texto que escrevi e li como orador dos formandos de 2008 do curso de Comunicação e MultiMeios da PUC/SP

Tema da redação: Heróis reais