O frio

O frio tocou o clima como é o olhar da indiferença de quem tem medo de se entregar e fala. O frio é tímido mas não cala; protege-se mas não controla a sua intensidade e chega. O frio é de escorpião e nasceu como a água em outubro.


Aconteceu que o chão ficou frio. As roupas, calças jeans ficaram dias no varal para secar. A maneira de tomar banho se alterou. Mudou o tipo da fome. Mudou o tipo de amor. Esse inverno abençoa, com a solidez do aprendizado que ele traz, a roupagem dos meus atos. Os músculos registram em seus ventres novas informações. A circulação se mantém. Fico forte sem melhor opção. Julgo que ele chegou para a minha morte, julgo que ele chegou para a minha sorte. Só não julgou que ele chegou para manter paradas as águas. É um frio de movimento. Um frio da natureza. Um frio cristal. Como tal aponta um futuro límpido após a sua passagem ou após a sua integração.


Eu não sei se passará, não sei se entregará. Sei que hoje o desejo e o demonstro com beijos. A barba cresce em minha face e não quer que seja feita. O peito bate cheio de classe; é como se olhassem para a eleita necessitado de elegância. Como se agora na vida apenas bastasse a colheita, a caçada ao alvo identificado, o último tempo de um grande ciclo de crescimento.


Para me manter quente neste frio maduro não posso começar orações com eu juro. Não posso privar liberdades de quem vai pelos ensinamentos da vida. Movimento-me, mudo, maturo, mordo como fera. A era do gelo é só um nome dado por aquele velho dentro de mim que morre em um momento inédito. A era da luz é só minha fome, uma reviravolta interna que corre pra um abraço inicialmente tépido mas que puxa o calor da fonte da vida e acaba em brilho.


Diferente dos amores que já tive foi dada a mim essa nova estação, que eu não sei se houve mesmo crédito para compensá-la. Mas tenho batendo sempre, rodando o sangue no corpo, aquecendo peito e mãos, um órgão para amá-la. Tum-tum no frio é mais difícil. Tum-tum na liberdade é mais inseguro. Tum-tum nessa nova adrenalina é estimulante. Tum-tum tá bom como tá. Tum-tum assim me desafia e, por isso, mantenho-me firme frente ao frio, ereto, sou árduo, estou quente. Um fogo redundante para não congelar. Talvez tremendo um pouco para compartilhar minhas vibrações. Estalo um desejo de te excitar. Tum-tum entro em ti e ainda não me basta. Quero mais. Mais. Mais. Mais. Há muitos mais tuns para tum-tum-tar junto a ti.


Aceito estar ancorado no presente. Ficarei aqui sem vislumbres como eu quis, pedi e recebi. Presente de Deus. Temperatura. Só não sabia que iria causar contraturas nos anseios meus.

Comentários

Sandra Di Célio disse…
Nossa, que percepção, lindo! Senti foco, maturidade e ainda assim, lindo.

"Olha só o que o vento faz com o papel
E traga ele a notícia que for
Vai voar... voar...
É assim quando se gosta de alguém
Não se consegue mais impedir
Que o amor
Faça o mesmo com o coração
Traga ele que razões trouxer
Nem o tempo sabe mais dizer
Quando é ontem, hoje ou amanhã.
Olha só, como a gente nem sabe
Onde está
Nós somos o papel a voar
Comtemplando este mundo
Tristonho, profundo
Olha bem, porque quando se tem
Tanto amor
A gente pode ter muito mais"
Folha de Papel, Tim Maia.

Me trouxe esta música ao pensamento! (Acho que é o clima da data... rs)
Anônimo disse…
Puxa, me aqueceu!
cezar bergantini

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Bustamante

Texto que escrevi e li como orador dos formandos de 2008 do curso de Comunicação e MultiMeios da PUC/SP

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