Rita disfarça por paz

A Rita é uma mulher que pinta quadros do Romero Britto num bar aqui perto de casa. Um bar desses que rola um forrozinho a noite e é habitado pelas pessoas que a sociedade chama de povo antes de conhecer. Vende-os bem para muitos clientes. Muitos trabalhadores de terno passam na calçada a hora do almoço. Há muita mulher movimentando forças hoje em dia - e desde sempre. Toda vez a cumprimento. É engraçado que às vezes ela não quer cumprimentar. Pelo simples motivo de não o querer. Ela vê que eu venho de longe, vira e mantém o rosto virado para o outro lado. Eu vou olhando para ela, que, se me olhar, eu a cumprimentarei: bom dia, Rita! Mas quando passo, ela vira para o outro lado rapidamente, sem me ver... E eu sigo. "Será que ela queria antes de me cumprimentar ter aprendido meu nome como eu aprendi o dela?" Inicialmente, dou meus passos após o descumprimento como quem perdoa alguém que não tem nada para ser perdoado. Depois penso nos dias. Há dias que se quer e dias em que não se quer. No outro dia passo no mesmo sentido e horário, com a mesma expressão pré-metrô no rosto que vai por São Paulo muitos dias e ela me cumprimenta com sorriso de amiga. Damos bom dia um para o outro e ela pincel na tela copiando cores e eu passos no trânsito copiando outros eus.

Comentários

Sandra Di Célio disse…
Simples e expressante. Consegui ver a cena!

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Bustamante

Texto que escrevi e li como orador dos formandos de 2008 do curso de Comunicação e MultiMeios da PUC/SP

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