Fim do dia

No fim do dia, paira uma aura de pedra pelos espaços do apartamento... Há dias em que essa aura é de uma ametista azul celeste. Há dias em que é a alma cinza de pedregulhos fragmentados. Pedras farelo granudo. Mas fique com a imagem da ametista azul celeste. A aura pauta o seu caminho para a cama, a maneira dos seus gestos. Modula as suas sensações pessoais antes de ultrapassar o portal para o sonho. Você, que tem o chão nos pés, a acessa por baixo. As mãos estão levando para cozinha o prato sujo de janta, que ficará na pia até o dia seguinte, e o papel plástico do chocolate, que vai para o lixo reciclável e, por isso, diminui a sua culpa insustentável indicando uma possível sustentabilidade. É a ação semi-depressiva, que fugiu para uma ilusão. No automático domínio do cotidiano, você dá a aura de pedra o poder de basear seus pensamentos. Mas no domínio de si, você a reforma. Cada pensamento é uma sinápse relampiando vontades nos ocos do mundo. Quando deita na cama, o prazer vem da antítese. Pedra vs. Colchão. As molas conversam com os músculos cansados, como esposas de maridos que chegaram, abandoram a fadiga e agora se estiram em braços femininos. Despidos de mundo. Limitados, livres e protegidos no íntimo. Dentro da letra "o" da palavra expressão "que bom!". Você adormece e a aura desaparece.

Comentários

Sandra Di Célio disse…
Bonito. Vou usar pra estes dias intensos, quando se vê diante de toda dor da ausência que trouxe a certeza de que alguém partiu vs. a convicção de que pra sempre permanecerá vivo. Vou ficar com a imagem da ametista azul celeste.

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Bustamante

Texto que escrevi e li como orador dos formandos de 2008 do curso de Comunicação e MultiMeios da PUC/SP

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