Manifestações 2013

Não se trata da expressão maximizada de um trabalho duro construído quotidianamente por tantas pessoas que dão a vida em movimentos sociais Brasil afora e também por aquelas que, dia após dia, dizem não ao jeitinho, pensam antes de votar, moldam suas ações segundo o bem comum e se indignam diante do sofrimento imposto pela esterilidade de uma política que não sabe ser SERVIÇO. Não! Os politicamente corretos estão aí há muito tempo, não foi sua presença que fez alguma coisa acontecer. Não seja ingênuo. Ambas são coisas positivas, engrandecem o país mas são diferentes. Se indignar e agir sem conflitos, fazendo o que lhe é possível, é uma coisa. Se indignar e ir para o conflito, fazendo o impossível é outra. Você nem citou o Movimento Passe Livre (MPL) no seu comentário. Trata-se de um movimento que viu na questão da tarifa uma ação do autoritarismo político em manter o poder repressor e não uma necessidade de manutenção do serviço de transporte. Esse movimento decidiu DESRESPEITAR a ordem: fechando ruas não autorizadas pela polícia, teve que se defender do choque, parou a vida do cidadão de São Paulo (que reclamou e xingou de baderneiro) e se manteve firme brigando por um... sonho. O MPL não foi bonzinho, ele agiu certo e educador - o que é muito diferente. Vide o jargão: "Quem ama educa!". Ele educou o povo muito além do pretendido! Ainda falta muito nesse crescer, mas seu exemplo já fez ultrapassar o que era imaginável. Merece reconhecimento. Por quê isso aconteceu? Porque o povo já estava preparando para aprender; com o saco cheio de fazer papel de ignorante. E o povo, meu amigo, o povo é gente pra caralho!

O brasileiro tem o costume de por panos quentes nos conflitos para manter as situações "agradáveis", “apresentáveis”, “imagiiiiína...”, “a aparência é muito importante”, “...o que se passa dentro de nós? Depois a gente vê”. O show tem que continuar...! No movimento de manada do povo brasileiro costumava ser assim. Pra inglês ver era a nossa marcha automática, se tirarmos pela média. Mas, claro, o Brasil apazigua até onde dá. E, ainda, se acontece o conflito a tendência é a postura de “isso não é comigo”, “precisamos achar alguém em quem pôr a culpa”, “como eu tiro o meu da reta?”. Esses panos quentes acabaram chegando aos protestos depois do crescimento da manifestação, em São Paulo, no 5º Ato; o que o embrasileirou em sua maior parte. Ali, a máscara da polícia do estado já tinha caído, já tinha sido mostrado que a repressão é que destruía a cidade (gerando o vandalismo) e não o grito que bloqueia a ruas para poder ser ouvido, pacificamente e rudimentarmente bate depois que apanha.

Mas no caminho até aí, meu amigo, cheiramos gás lacrimogêneo, tomamos tiro de borracha, spray, bombas de efeito vencido... Contudo, nos mantivemos animados (cheios de alma), cada vez mais. Energia muito diferente da que se formou no meio da manifestação dos motivos múltiplos – válida, claro. Era assim: “Houve vandalismo mas ele é de uma terceira força, que não conhecemos, nem existe, não liga, deve ser os tais anarquistas, ninguém fala com eles, e a responsabilidade está lá, em qualquer outro lugar menos aqui!”, “esse conflito não é meu”.

Quando participei do primeiro confronto da polícia, entrei numa fissura depois que tudo acabou. Dada à nova experiência, adrenalina, sensação de pertencimento e querer se munir cada vez mais de entendimento - pesquisando na vivência da experiência recente e na internet. Fichas caindo a mil... “Não é a guerra que aparece na TV com seus enquadramentos escandalosos, é horrível mas dá para andar”. “A polícia do estado faz com que a depredação aconteça, manipula a situação, ataca quem está na paz e visa criminalizar o movimento – que absurdo essa verdade caindo dentro de mim!”.

A paz se constrói com a boa luta, para ser pacífico é preciso agir na construção da paz. Agimos! Ninguém suportará mais tanto desamor. Negamos a repressão, tacamos pedra na tropa de choque que ataca covardemente e fere nossa manifestação sob o motivo de manter a máquina exploratória dos transportes, que a alimenta. É um cão feroz e nós mexemos no seu prato. Ela abocanha nossos companheiros para o estômago de suas delegacias ilegalmente, com medo da fome... Reagimos para dizer, não só com as ideias, mas com o corpo (quase esquecido na civilização mental/virtual, mas presente na manifestação) que grita para quem está além do choque:

"Eu descobri que eu existo, porra! Quero usufruir dessa cidade. Solta ele! Pára de atirar! Não é você quem vai determinar como as coisas são, pois isso está errado por A + B e você se fudeu porque é óbvio, todos poderão ver! Seu medo em ser revelado na sua força egoísta faz com que você aja com troculência e, assim, se auto-revele. Mas esse tipo de revelação precisa sempre de um palco. Estamos nele! Em nosso caso, isso aconteceu! Montado para a sociedade do espetáculo. Um palco o mais cheio possível de iOlhos. O palco artéria! A Avenida Paulista! AHHHHHH... AHHHHHH... BOOOOOMMMM... BOOOOOMMMM ... Filho da Puta!".

A depredação de alguns símbolos foi importante para trazer energia para o movimento. Quebrar estação de metrô na Av. Paulista – símbolo dentro do símbolo – mostra que a coisa é séria, que há disposição em enfrentar os poderosos maquiadores da verdade. Ninguém ousa tanto por simples vandalismo, nesse dia teve mais autodefesa dos manifestantes colocando coisas na rua para atrasar o choque em sua caça do que depredação avulsa a isso. Porém a depredação foi positiva nesse início dos protestos! Foi ato político, com intensão ou não. Valeu! Lembre-se e entenda: foi ação dominó da truculência do choque, mas que nos beneficiou. Eu estava ao lado do cara que atirou uma mesma pedra no vidro da estação alto design da linha verde várias vezes até quebrar. Não senti a mínima vontade de reprimí-lo, não naquele momento, algumas pessoas tentaram apenas falando para parar. Hoje, eu ajudo e incentivo a reprimir a depredação, porque a ideia é outra.

Cheio de gás na face e finalmente acordado o suficiente para enxergar como a manipulação pela força acontece socialmente. A criminalização de algo bom. Você percebe que não é totalmente contra depredações. O que interessa é a arma política. Quebrar inicialmente chamou a atenção, disse que é sério: arma política. Não quebrar chamou mais a atenção, mostrou que viemos em paz: arma política. Não importa tanto quando são símbolos que podem ser refeitos (nunca vou apoiar depredar, por exemplo, o teatro municipal – mas estações de metrô? Mas ônibus? Porta de agência bancária? Que quebrem quando for necessário, quando isso for político), a mudança precisa dessas armas sendo usadas.

Ao invés das depredações serem postas a margem de tudo, quase com nojo, elas devem ser integradas como ações eficientes. Tanto a sua execução, quanto a sua não execução. Pois, planejadas ou não, são as fúrias que não dá para segurar, são as ações que a inteligência pode controlar.

Então, não se trata de uma ONG das boas ações politicamente corretas que se esparramou ajudando nisso, que estamos vendo agora. Elas vão ao ritmo da carroça que é o Brasil. Não foram maximizadas suas ações. Criou-se algo novo, que estava faltando e rompe o sistema estabelecido na exploração dos transportes. Com as portas abertas e as boas ideias plantadas na mente, o corpo do povo veio às ruas. Como declarou o MPL após a conquista da revogação da tarifa:

“O povo constrói e faz a cidade funcionar a cada dia. Mas não tem direito de usufruir dela, porque o transporte custa caro. A derrubada do aumento é um passo importante para a retomada e a transformação dessa cidade pelos de baixo.

A caminhada do Movimento Passe Livre, que não começa nem termina hoje, continua rumo a um transporte público sem tarifa, onde as decisões são tomadas pelos usuários e não pelos políticos e pelos empresários. Se antes eles diziam que baixar a passagem era impossível, a revolta do povo provou que não é. Se agora eles dizem que a tarifa zero é impossível, nossa luta provará que eles estão errados”

Um ladrão já foi bem atacado. A marcha, que continuará, fará os outros 39 ladrões se atacarem, se auto-revelarem e se auto-destruirem, pois não sobrevivem ao palco dos acontecimentos. A luta é por bastidores a serviço do povo, não a serviço da exploração do mesmo. Mas para isso as manifestações que não se auto-destruam antes, perdidas em ingenuidades. Os vampiros não suportam luz do sol que está nascendo e estão sendo trazidos para a rua. O Brasil está brilhando o ouro que nasce de suas próprias terras. Minha gratidão imensurável ao movimento que mudou o Brasil: Movimento Passe Livre, um professor do povo, que quer aprender e espero que realmente aprenda.

Vitor Bustamante, ex-povo-merda.
Nascido em 11.06.2013 como cidadão brasileiro ouro!

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Bustamante

Texto que escrevi e li como orador dos formandos de 2008 do curso de Comunicação e MultiMeios da PUC/SP

Tema da redação: Heróis reais