Tristeza que veio

Quando me veio a tristeza, no meio de uma apresentação que assistia na cidade, a tratei como uma intrusa, como um miasma que precisava ser removido. Como algo que não fazia parte de mim. Foi difícil e demorou para eu aceitar que a tristeza nascia de mim, éramos a mesma natureza, eu era a pedra da sua água brotando. Tanta coisa melhor para brotar. Mas o que brota já foi filtrado, existe com pressão para a saída na superfície, seu florescimento é inevitável. A tristeza brotou. Eu não queria. Quando entendi, aceitei. Ao aceitar, ela fluiu com menos impecilhos em seu caminho. O peito sentiu seu borbulhar. Como era líquido, deixou menos espaço para o ar nos pulmões. O brotar não subiu para o rosto. Saiu direto pelo peito em algumas contrações musculares e pulsos magnéticos na caixa torácica, que pareceu uma TV chiando domingo a tarde esquecida por um corpo humano jogado no sofá e que vaga em sonhos e ilusões longe do mundo e ronca. Não pela vergonha de chorar em público evitou se verter em lágrimas, mas a naturalidade direcionou a tensão reta pela frente, pelo peito, pelo esterno, pelo chacra, pelos pêlos. Talvez atraído pela arte em palavras que estava a minha frente na apresentação de poesias, letras de músicas e literatura do Museu da Língua Portuguesa. A gravidade da arte puxou o que estava guardado; sem direcionamento, sem agendamento, sem projeto, foi direcionado, requisitado, evidenciado e concluído. Compreendi um pouco mais que arte liberta e dialoga com o invisível, mostrando-o sem mostrar, chorando sem chorar, respirando sem ar, vindo em onda sem mar.

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Bustamante

Texto que escrevi e li como orador dos formandos de 2008 do curso de Comunicação e MultiMeios da PUC/SP

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