Mini-livro para você

Parte I - Sonho

Sonhei que eu era uma nota em seu piano. Esperava ser tocado para ressonar. Esse era o meu principal objetivo.

Tinha em mim a ansiedade ingênua adolescente, de quem se julga já malicioso e esperto, sabido de tudo; mas ainda está com a pureza da infância em cada um dos olhos. Estava no mundo em um escala mansa e de grande comunhão para com a Natureza. Eu e as plantas éramos iguais, na ordem, estilo e irradiação.

Como podia, aproveitada a vibração das outras notas que, antes de mim, recebiam a sua atenção. Reparava em cada nuance que chegava a mim para sonhar o mais próximo possível com como seria na minha vez.

Imaginava-me feliz. Acreditava que aproveitava assim ao máximo minha solidão habitando o que havia de mais belo em meu peito. Até que, enfim, você me tocou.

Parte II - Tocada

Estremeci com gostosidão. Como uma alma que recebe da vida um belíssimo mas singelo presente, ressoei. Com o ressoar, não pude evitar de sacudir o pó de minhas doces ilusões. Estava sorvendo a realidade do momento. A reunião de nós dois. O momento em que nota fui tocada. Esse seu contato revelou-me uma consciência superior e interessante... Minha alma iluminava-se como uma galáxia em movimento. Série harmônica estelar. A mão que eu admirava me tocou como a varinha de uma fada. Cheia de poderes e magia. Aconteceu que eu cresci.

Mais livre de minhas ideias. Sentia o gosto verdadeiro das coisas. Que tamanho tinha tal felicidade!

Parte III - Respirei

Quando cresci, chegou até mim, com a qualidade de um acorde, a cantiga de escolher. A possibilidade de escolher por mim, direcionar, moldar e colorir o fluxo que me atravessa e vai...

Sentado em cavalo branco, reposto do contentamento interior, que é a poesia de deitar em si e só ver no mundo o amor; consciente inspirei tudo para dentro de mim e esperei subir por minha coluna a grande força vital para só depois expirar, abrir os olhos, nus de filtros, e olhá-la.

Lá estava você e um novo eu para reagir como ninguém saberia ao próximo impacto do toque do teu dedo.

Parte IV - Riso frente a ti

Como uma nota masculina a observei, enquanto crescia em mim uma barba num rotso de queixo firme num corpo de braço sólido. Descobri que a dona do mundo era apenas a dona de um piano. Quando assim, me vi em riso frente a ti, na possibilidade de jogar de igual para igual, o que nenhuma das outras notas conseguiu.

Como agora podia ser safo e brincar no mundo como adulto, esperei seu toque com um plano de fazer silêncio e, quando me tocou, não ressoei.

Parte V - Brava emocionada

Brava emocionada você "Puta que paril, nota do caralho!" de um lado e "Puts, o que foi que eu fiz? errei!" do outro.

Com o silêncio chamei a sua atenção; primeiro para si mesma em autoanálise, depois para mim em observação cuidadosa.

Aconteceu de gostar-nos mais. Nos encontramos mais. Eu aprendia a ressoar melhor, melhorando músicas e melhorando o piano. Você aprendia a impactar com outras intensões, melhorando as relações.

Hoje o coração do seu dedo vai aprendendo a cada dia a dançar com o coração da minha tecla. Os olhares desvestidos prudenciam menos as palavras e se tem mais comunicação, união.

Vou feliz nos meus pianos
Vai você feliz nos seus impactos

Num pedaço de cada um vai uma dor
Pois a relação que tivemos um com outro foi de amor

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Bustamante

Texto que escrevi e li como orador dos formandos de 2008 do curso de Comunicação e MultiMeios da PUC/SP

Tema da redação: Heróis reais