Rodas e a possibilidade da metade

Comprei rodas novas para a minha bicicleta. Vieram com adesivos cheirando a patrocínio, profissionalidade na ação rotatória. Essas são mais rápidas nas intenções de acelerar e frear. Rodas firmes, decididas. Não nasceram sob o signo de gêmeos. Após as primeiras semanas com elas, questionei os adesivos. Questionei assassiná-los e botar seus cadáveres no lixo reciclável. Ficaria com a roda toda preta. Uma sensação de estilo, meu ser artista pedalando pós-modernidade na metrópole. Seria um homem clean e atrairia garotas que usam boina e roupas descoladas, aquele amontoado de panos. Mas a dúvida fez vingar apenas metade da minha ação. Tirei os adesivos somente do lado esquerdo da bicicleta, como uma mulher que bota silicone primeiro em um dos seios e assim pode decidir completar a turbinada no segundo tempo, após infinitas trocas de passes em frente ao espelho. Mas num jogo que não tem prorrogação, vai direto aos pénaltis. Rodas são mais sérias que quadrados e facilmente causam a ilusão do contrário. Estou agora com duas bicicletas. Como a mulher que tem dois corpos. Posso olhar só para a esquerda e ver uma coisa e olhar para a direita e ver outra. Claro que irei decidir remover o restante dos adesivos para ficar com a bike toda igual, equilibrada. Mas quando a reforma é no corpo fazemos de tudo para nos despedir aos poucos de nós mesmos.

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Bustamante

Texto que escrevi e li como orador dos formandos de 2008 do curso de Comunicação e MultiMeios da PUC/SP

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