Carta para as minhas ex-namoradas

(carece revisão, careço descanso: amanhã) Eu vou casar. Sim, um começo assim retumbante na carta de um ser que volta a falar. A conexão com papel, ao escrever, ao jorrar alma pela catarata das letras é similar a conexão com vocês. Que nela reste apenas a eternidade dos seres que somos, do encontro que já foi. As miudezas das mazelas humanas queimaram como incenso de cheiros azuis e violetas subindo em fumaça incolores... E descendo em cinzas indolores, a serem levadas pelo vento do dias. Feito relva andada. Ninguém larga a grande roda. Não se sabe onde é que andou. De tudo fica um pouco. Ficou um pouco em mim nos nascimentos meus que tive com vocês. Amo esses momentos. Ficou um pouco em vocês dos nascimentos que tiveram comigo... É sacrilégio unificá-las em um plural. Eu sei. Tão única cada experiência que nem encarnações poderiam ser suficientes para propor as diferenças. Mas o marco que se aproxima, a floricultura nova que eu estou abrindo depõem a favor da calcificação desse passado, que com carinho tanto guardo. O sentimento amor que um dia eu tive carrego com um nutrir vitalício em um potinho artesanal que comprei no interior das terras da vida e da dor chamado gratidão. As lembranças mais valiosas me constroem e relampeio o pensamento para não chorar. Tudo fez de mim, que antes era um jovem ladrão de flores, jardineiro. Os passeios pelo jardim valeram muito, como os pés na areia da praia que ante-vêem o oceano, e vou entrar na floresta finalmente em busca do cálice sagrado. Aprender, quem sabe somente pelo ato fazer, com a multiplicidade do sonhar já passada, a gerar novas vidas a quem chamamos filhos. Ninguém larga a grande roda. Ninguém sabe onde é que andou. Aquele menino canta, a cantiga do Pastor.

O Pastor
Madredeus

Ai que ninguém volta
Ao que já deixou
Ninguém larga a grande roda
Ninguém sabe onde é que andou

Ai que ninguém lembra
Nem o que sonhou
(E) aquele menino canta
A cantiga do pastor

Ao largo
Ainda arde
A barca
Da fantasia
E o meu sonho acaba tarde
Deixa a alma de vigia
Ao largo
Ainda arde
A barca
Da fantasia
E o meu sonho acaba tarde
Acordar é que eu não queria.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Bustamante

Texto que escrevi e li como orador dos formandos de 2008 do curso de Comunicação e MultiMeios da PUC/SP

Tema da redação: Heróis reais