sexta-feira, abril 11, 2008

Engraçado como as coisas acontecem

Tenho um amigo chamado Rodrigo Rosa, que é um dos jovens mais ativos na promoção do bem em São Paulo com quem pude estabelecer um vínculo nesses meus três anos morando aqui. Algumas vezes ele escreve textos e envia por e-mail. Adoro-os! São ótimos... Comentei com ele que gosto de seus texto e ele retribuiu meu comentário presenteando-me com um poema (também de sua autoria). Após isso me senti inteiramente voltado a lhe enviar um texto meu e transformar essa pequena troca de mensagens em um diálogo mesmo. Lembrei do texto Às vezes, comprar a passagem pode ser o melhor da viagem e achei que era o mais interessante para lhe enviar. O curioso é o texto está com exatamente 1 ano de vida! Faz aniversário! 10 de Abril! Achei isso de uma força motivadora. E resolvi colocar tudo aqui como estou fazendo para ficar também uma homenagem ao blog. Fica novamente o texto para que se possa ler e dessa vez dedicado a ele! Um grande abraço no Rodrigo, Rodriguinho!


O Antonio Afonso foi comigo até a esquina. Despedimo-nos e entrei no metrô São Joaquim. Em pouco tempo estava no Tietê. Era quinta-feira da Semana Santa. Quando cheguei na rodoviária e parei um pouco para olhá-la, ver que, na verdade, a rodoviária são as pessoas em movimento e não o prédio estático, deslizei os polegares pelas alças da mochila que carregara o dia todo. Estampada em meu rosto estava a frase "Ir pra casa". Na covinha da minha bochecha estava a palavra "satisfação" disputando um pouco daquele espaço com a palavra "enfim". Até que eu vi que uma não anulava a outra e assim meu sorriso aumentou, a covinha também e as duas com espaço puderam ali dançar uma música em homenagem a harmonia.

Pensando que "enfim" nascia do desejo de chegar e que "satisfação" nascia de onde já se estava, andei até a fila do guichê para comprar minha passagem. Havia mais duas filas a minha direita e, em cada uma delas, uma mãe e, em cada mãe, duas pernas e, em cada par de pernas, uma filha que segurava a calça adulta com seus dedinhos pequeninos. Meus polegares novamente pelas alças da mochila deslizavam. Olhei para a primeira menina, que estava bem ao meu lado. Ela me olhou séria. Voltei. Olhei de novo com o meu sorriso estrelado por minha covinha. Pareceu que algum brilho refletiu no rosto dela e ela me sorriu. Segurando o sorriso, olhei para a frente como quem está fazendo arte. Estava na minha fila. Percebi a segunda menina me olhando. Um sorriso em mim, um sorriso nela. Cúmplices de um sorrir. As mães olhavam só para a frente, estavam em suas filas com o dinheiro na mão. Coisa de adulto. Eu, quando estava olhando para frente e com a carteira na mão, era só uma criança brincando de gente séria. Fazia isso para fazer graça com as duas. Comprar a passagem era o que menos tinha a minha atenção naquele momento.

Eu “sério”, virar o rosto de repente e pegá-las me olhando em flagrante. Ou, elas me pegando em flagrante, eu virar o rosto de repente e fingir estar sério continuando o meu caminho reto. A brincadeira deu a nós três um tempo totalmente diferente do que era o tempo para as outras pessoas nas filas, do que era o tempo que corria no grande ponteiro dos segundos no grande e pesado relógio da rodoviária. Um em cada fila estávamos todos num mesmo lugar e nele vivíamos intensamente. Conversando horas só com os olhos. Longos papos plenos e profundos. Nossos espíritos usando os nossos corpos. Como éramos grandes e leves ali.

Cada um havia chegado vindos de um lugar diferente e diferentes eram os destinos escritos nas passagens, diferente seriam os ônibus, os motoristas que nos levariam a diferentes locais, mas naquele momento era tudo um um. A união nas diferenças. Diferenciar e unir. Não dividir e misturar! Que força éramos nós três! Uma força única habitanto três pessoas naquele momento.

A menina que vi primeiro foi embora primeiro. Saiu quando eu estava sério com carteira na mão e quando a vi já estava de costas, ela saltitava feliz de mãos dadas a mãe, que não presenciara o nosso segredo. Aqueles pulinhos da alegria da menina eram fogozinhos de artifício que raiavam o meu coração iluminado. Trazer para a felicidade. A segunda menina eu não perdi de vista na despedida. Muito preocupada em manter o segredo, demorou um pouco para responder o tchau com a mão que havia lhe dado. Quando viu que ninguém estava olhando, com uma carinha tímida em seu um metro de altura, disfarçando, me respondeu com a mãozinha mais graciosa que já vi em uma criança. Aqueles cinco dedinhos apontavam para o que há de melhor no mundo, eram os raios de um círculo perfeito chamado amor e me entregavam o maior presente de todos mostrado a mim na palma daquela mão: a vida. Aquelas duas na quinta-feira... Saltinhos e dedinhos! Foi a coisa mais linda.

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Ao terminar de ler A Natureza da Mordida

Foi a mesma sensação de parar com o marcador página na mão após acabar um livro. Eu não sabia onde colocar meu sentimento após aquele final....