Hormônios

Voltando da aula com o Zé, resolvi perguntar se ele não queria para ali na casa do D. para a gente ficar conversando um pouco. Eu queria ver sobre a minha ida à Lorena, para um vestibular que vou fazer domingo agora (*esse vestibular já foi feito), visto que o D. estuda na universidade. Saber quais ônibus pegar, blablablá. No final o próprio Zé se antecipou à resposta que pedi ao D. e me informou. Mas foi bom ter parado ali e também não foi.

Bom por ver o D., amigão do colegial e uns dos poucos amigoamigo que tenho nessa cidade. Sair na rua e conversar com quem gostamos é viver e deixar um pouco de só existir, além de ser um prazer. O grupo de rapazes na calçada, dois com suas bicicletas por estarem voltando da aula, eram: Eu, Zé, D. e irmão do D.

O lado ruim. Bem, eu quase não falei na nossa conversa. Eu já tenho uma tendência a ficar mais calado em grupos e não que eu esteja viajando o tempo todo, seja tímido... não é isso; muitas vezes percebo que estou mais concentrado no assunto do que os próprios argumentantes que, falando, viajam às vezes. Eu tenho um certo prazer por "gerenciar" a conversa, mesmo que só para mim. Ver quando um assunto foi cortado por um outro que passou com "um shortinho" do outro lado da calçada em frente à padaria, ver qual assunto era esse. Lembrar dele para voltarmos com a conversa caso a distração vire na primeira esquina e venha a clássica pergunta após interrupções: "Do que a gente tava falando mesmo?". Bem, o Vitor lembra. O desgraçado do Vitor sempre lembra! E costuma ser aí que eu entro mais nos diálogos e meus pensamentos têm a chance de se transformarem em comentários espontâneos (bons ou infelizes, mas, se infeliz, a galera "paga um sapo" da sua cara, damos uns risos e "de boa", sossegado - quase nunca encano com gafes, pelo menos na hora, entre amigos; na hora até entendo o erro, mas vou perceber a gravidade dele um tempo depois. Medir seu tamanho? Só depois). Ainda não apresentei o lado ruim. Vamos lá.

Cada distração que passa, seja longe, dentro de carro, com o pai do lado (namorado "a gente" finge que não viu e depois comenta), numa moto ou num par de havaianas, vira tema eminente das conversações da roda. Homens, lembre-se agora do termo: homens. É incrível, não perdoam uma! e deixam menos de 10% do tempo juntos para falar em outras coisas: "quem vai levar a cerveja para ver o jogo hoje à noite". Nessas horas, quando as desfilantes invadem a conversa, 90%, eu sempre fico mudo, vejo de fora, sabe como é? Eu não sei por que, mas não estou nem aí para isso, ao mesmo tempo que estou totalmente amarrado nisso. Se não fossem eles, se eu estivesse com pessoas como eu, daria uma olhada ou outra com a maior finalidade de descobrir se eu conhecia a pessoa, para enfim cumprimenta-la caso se demonstrasse estar de "conhecido" para cima. Uma ou outra que chamasse mais a atenção me faria olha-la de costas, se afastando. Nunca fui de olhar para bunda de mulher, mas de um tempo para cá, antes que perceba, meus olhos já caíram em decotes ou cofrinhos; curvilíneos virtuosos ou demonstrações de peças íntimas - principalmente no colégio.

Ah, eu tirei a pérola "curvilíneos virtuosos" de uma propaganda da TV, dessas da polishop, ligue e compre, entregamos na sua casa. Era um sutiã de silicone que se você apertasse mais seus seios com plugger apertator 2 mil e trinta, que só aquele sutiã tem, você poderia passar os seus seios de "sex esportivos" para "curvilíneos virtuosos". Claro que isso narrado com a aquela voz clássica do locutor que consegue dizer 20 palavras onde cabem duas.

Parece que quando a gente vai crescendo, os hormônios vão subindo a cabeça e não param. Cada um que consegue chegar ao topo, joga a corda para outro, que por sua vez, quando chegar, jogará para outro, esse para outro e para outro. Pelo que vemos, os meus olhos já foram totalmente invadidos. Meu cérebro mal consegue deter um mergulho numa curva feminina ousada por causa desses hormônios que contam a comunicação do raciocínio-lógico com os glóbulos oculares. O pior é quando o inevitável acontece e depois de grande constrangimento você consegue voltar os olhos para o rosto da sua amiga que não sei porquê veio com aquela maldita roupa, ela começa a querer arrumar, querer tapar mais a pele com aquele mesmo pedaço de pano que tinha antes, como se fosse possível. Elas acreditam que o pano vai se esticar e cobri-las, mas no final, continua tudo igualzinho e isso só faz pairar no ar uma cara de indiferença meio forçada por um certo tempo. Esse ato de tentar se mostrar menos é ineficaz, sempre faz com que elas se mostrem mais durante a frustrada arrumada do que se não houvesse a tentativa. Os hormônios, desgraçados irregressíveis, fazem a mais badalada das festas nos meus olhos, batem palma, gritam: "tira, tira, tira, tira..." e alvoroçados assim, ficam impossíveis deter.

Era eu, o Zé, o D. e o irmão do D. O irmão do D. é mais velho, deve ter uns 25 anos (para não dizer 24) e nós sabemos que o filho da puta -- não há outra definição, perdão -- leva para a cama todas as meninas com quem ele fica. Agora ele tá namorando, indo pra cama com menos luta e é só isso que muda: poupa esforços. O D. é o que podemos dizer de o cara mais bonito da cidade. São incríveis as propostas que ele recebe, já presenciei mais de uma na cara-dura. Mas ele tem namorada, não é como o irmão, é mais sossegado, tem minha idade, 18, ainda não transa. O Zé já "mandou", por assim dizer, umas 3 ou 5 vezes aí, pelo menos até o último papo (isso deve fazer um mês) sobre a vida penetrativa dele. Eu? Eu aos 16 dei meu primeiro beijo, rolou num carnaval, mais de um dia, aos também 16 conheci outra menina, muita água já tinha rolado na minha vida (estava naquela fase do segundo ano colegial onde cada mês tem o valor de um ano) e namorei, namorei por dez longos, maravilhosos e deliciosos mêses. Bem, esses dez meses terminaram faz um ano e meio já, exatamente um ano e meio, e por lá ficou o meu último beijo. Na minha segunda garota, dizendo assim, mas sem querer faltar com prezo a ninguém.

Voltando à conversa. A coisa mais difícil era me ver falar ao passar uma garota: "Nossa, você viu?". Mas ultimamente, convivendo com esse pessoal ou seja pelo simples fato de estar ficando mais velho, eu falo sim. E falei hoje, aliás. Nessa aula da tarde que fui com o Zé. A menina mais... não vou falar rabuda(rabo bom) como eles falam porque eu nunca falaria isso, mas digamos aquela menina (agora eu vou escrachar porque eu pensei assim mesmo e não "lembrei como os meus amigos dizem") aquela menina que já deve ter ganhado pelo menos uma homenagem na casa de cada um dos portadores de testosterona do colégio, entendem? Sei que sim. E, se não, você é muito puro(a). Eu já a homenageei, revelo. E até sonhei com a danada-de-bonita uma vez, um sonho erótico, lógico ótimo. Aliás, acho que foi o último sonho de estar fazendo sexo que eu tive. Nossa, faz tempo! Não foi o melhor, acho que nenhum vai bater aquele meu, após ver um vídeoclip da Madonna quando eu tinha 13/14 anos. Ah, como foi bom! Mas voltando, então. Hoje mesmo eu comentei sobre mulher, da "maneira homem": "Maldita calça de ginástica enfiada, maldita!" A melhor bunda de um colégio de mais de 4 mil alunos vestindo aquilo. Não há hormônio ocular que não faça a festa, bata palmas e te distraia o tempo todo. Comentei com o Zé, e ele me disse que nos olhos dele teve festa também.

Nós quatro na calçada, hoje, vendo as meninas da tarde na cidade. Eu não consigo comentar e me aderir a eles nos comentários, simplesmente porque eu não penso isso. Eu sempre olho, primeiramente e depende da roupa, para uma menina como se ela fosse um ser humano; eles, todas as vezes, independente da roupa, identificado o sexo feminino, olham para elas como fêmeas prontas para o abate, e seus imaginários conseguem passear por cada cursa avista, olhos que têm a sede de um deserto. Eu não consigo olhar para uma menina assim, logo de cara. Inerte num grupo como esse é mais fácil, sempre acontece, lógico, está todo mundo falando disso. Mas não é o meu natural. Olho primeiramente para o rosto que é o mais importante. Pode ser gente conhecida que venha a trocar contigo algum sorriso seguido de cumprimento. Se estou natural, passeando pela rua, nunca olho para trás, para ver a bunda da garota. Minto nesse nunca, olhem só: Se há homens por perto e eles olham, eu pego e olho também. Não sei o que me faz agir assim. Talvez seja um tipo afirmação: eu sou tão macho quanto vocês. Ou então, se há homens, mesmo que não tenham olhado, eu pego e olho (mas assim é só as vezes): "Olhe, eu sou macho. Eu olhei, vocês não". Só pode ser isso. Não é de mim olhar para qualquer garota que tenha bunda boa na rua e morder os lábios. Não é.

Pareço tranqüilo dizendo tudo isso, mas não sou/estou. Eu queria ser como os meus amigos, sabe? Saber os nomes das meninas da cidade, ir nas baladas, ficar. Curtir mais isso. Curtir mais o contato corporal que tanto satisfaz essa época da vida. Me incluir no circuito. Fico é deprimido por estar encostado no meu mundinho solitário, onde fico esperando algo acontecer. Eu, tomar atitude em relação a garotas? Muito difícil, viram aí, uns posts abaixo, eu sou um Poetinha. Um maldito de um poetinha. Mas eu vou falar mais coisas que eu um poetinha faz. Vou falar.

O poetinha fica lá, meio sem graça entre os amigos que falam bastante de mulher. Ele é do tipo de cara que pode ter uma mulher na roda de conversa, pode não ter, ele fala igual, puxaria os mesmos assuntos. Só quando ele está falando sozinho com um amigo que ele vai dizer das coisas sexuais da vida dele. De resto... costuma reclamar que a maré tá foda, que a maré tá brava, que não fica com ninguém, nunca mais beijou na boca... Mas no fundo não está nem aí para isso. Se estivesse, faria alguma coisa. Ele quer mesmo é ficar no banho-maria.

Bem, o cara fica lá todo sem jeito com os amigos e tals, não sabe o que falar, não fala. Aí ele chega em casa, não tem ninguém em casa, vai para o computador e tem "alguns e-mails", vídeos novos que ele baixou, fotos de mulher pelada. Ela já fica de pau duro. Faz uns esquemas com a cueca e se masturba vendo as imagens que turbilham seus instintos. Quando acaba, no mesmo segundo o pinto já ficou mole. As imagens são vistas como se sua mãe estivesse do lado, você odeia ter se melado e vai tomar banho irritado com isso, você morre de preguiça de se limpar.

Hoje eu conversei muito mais mudo do que qualquer outra coisa com o pessoal. Aliás eu entrei no papo quando o irmão do D. falava da A. L., estava explicando como ela era e eu falei: "Ah, eu sei quem é! Estudou no meu colégio?". Ele: "É, isso mesmo. Ela mesma! Linda, né? Então... Uma vez ela tava com uma saia e sentou na minha frente... blablablá". Eram tantos comentários de mulheres que eu nem teria visto passar, mesmo se comigo elas trombassem, mulheres que eu nunca as teria enxergado sob o ponto de vista sexual, que eu me sentia mal. Cheguei agora em casa e fui chegar os e-mails, tinha recebido um power point de mulher pelada: "Só as melhores". Bem, eu já estava com esse texto na cabeça. Mas fui ver, eu nunca resisto para deixar para depois. Eu TENHO que ver! Bem, deu vontade de chorar. Eu não malho, sou magrelo. Não saio para as baladas, odeio. Não invisto com vontade em nenhuma garota. E quando eu chego em casa vou para a tela do computador ver as tops da beleza corporal e me masturbo? Que grande bosta! Por que eu faço isso? Se eu não falo homemente de mulheres... Se eu me perco nas conversas sobre elas... Se eu digo que estereotipo é uma coisa idiota... Por que eu venho aqui e vejo as rainhas do estereotipo? É certo, científico que esse negócio do estereotipo é meio falcatrua. O ser humano tem uma tendência instintiva de escolher mulheres com coxas grossas, bumbum farto, lábios carnudos, bons seios e silhueta porque foi nessas mulheres que houve um melhor desenvolvimento dos hormônios na fase da puberdade e são elas as que melhor gerarão filhos para a espécie. A espécie as seleciona.

Eu quis mesmo chorar quando vis as toptop peladonas na minha frente. Mas que negócio difícil que foi. Cara, o que eu sou? O que eu sou, hein! No fundo, estou falando de meninos em geral, todo mundo é meio assim que nem eu. Todo mundo vem pro micro algumas vezes na semana, ver mulher pelada; olha e fala das meninas só porque tem outros machos por perto; todo mundo queria ser mais garanhão e virar um cara que sabe curtir bem as baladas. Querer entrar no circuito. Sair ficando; ter uma namorada. No fundo são todos assim.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Bustamante

Texto que escrevi e li como orador dos formandos de 2008 do curso de Comunicação e MultiMeios da PUC/SP

Tema da redação: Heróis reais