sábado, junho 12, 2004

Uma Vanessa chamada
           Namorada

Estávamos, eu e mais dois amigos, na mesa da cantina conversando sobre mulher. Impossível falar de outro assunto quando estamos os três juntos. A nossa última conversa foi sobre nós (homens) amaciarmos para os outros comerem. Desculpem-me qualquer termo machistamente exagerado empregue nas palavras que aqui seguiram ou que aqui seguirão. As meninas arrumam um namorado e ficam com ele um ano, mas não dão de jeito nenhum. Tem que ser "A" primeira vez; especial, luzes de velas, perfumes no ar, baladas românticas tocando no aparelho de som; lógico, depois de terem ido a um restaurante bem chic e caro. Acima de tudo isso, os dois têm que estar na sua melhor fase, se amando como nunca ninguém amou no mundo antes. Só que as mulheres são cruéis! São sim. Fazem as preliminares com você no sofá, se pá até rola um sexo oral no namorado depois de seis meses para deixa-lo doido, doido, doido de tesão, querendo transar cada vez mais. Mas perder a virgindade não! Não tem jeito! Atiçam-nos à quase explodirmos, à quase perdemos a razão, pronto para agarra-las e consumarmos o ato. Provocam, provocam, provocam que vão... e não vão nada! Isso não causa uma frustração apenas psicológica, mas uma frustração hormonal também, física, uma frustração no corpo que muito quer. E não há punheta que resolva! Que descarregue toda essa eletricidade contida em nós. Nem com o vídeo erótico mais sensual do mundo ou com a melhor imaginação que você já teve. Sem chance!

Depois vem a fase em que a paixão do garoto começa a diminuir. O cara pára um pouco de ser o bobão apaixonado e começa a pensar direito. Ela não é mais a deusa da razão. Você começa a pensar por si e não mais pelas linhas raciocínios Dela. Nisso ela vem: "Que está acontecendo com você? Você não era assim! Não falava assim comigo... Desse jeito" E somos nós que estamos estragando a relação por estarmos deixando de ser bobos. Eu fui O bobo no meu namoro, sei bem o que digo. Vocês não fazem idéia de quão entregue foi o Vitor, só quem viu de perto. Podem perguntar: "É?" Resposta: "Nossa, o Vitor? Era babão bagarai! Um cachorrinho apaixonado".

Na hora de terminar somos, nós (homens) quem estragamos a relação. Ainda bem que isso ocorre só uma vez com o cara se ele tiver mínima inteligência. Porque depois... É que nem aquela história de viajar e ligar para mãe: Só ligue quando você chegar de viagem para ela saber que você não morreu na estrada, depois não fique ligando, deixe que ela ligue depois de três dias e reclame muito que você não ligou, que não dá atenção, blablablá. Porque se você ligar para ela todo santo dia, certinho e tals, uma vez que você não liga, ela já entra em desespero, chama a polícia e quando você for abrir os seus e-mails vai estar lá a sua foto como "Pessoa Desaparecida". Projetando isso na relação homem mulher: os meninos acostumam mal suas namoradas com todos os mimos possíveis, aí quando não fazem um, parece que o mundo acabou.

Elas (as namoradas) entram na faculdade e daí não têm mais os bobões do colegial. (Lá a carne goza!) Quando a menina começa um novo namoro e sabe-se na galera que ela "liberou" para o cara. Ah, meus amigos ex-namorados, vocês vão ouvir: "Amaciou para o outro comer, hahahá! Bundão!" E isso lhe vai fazer tremer de raiva, mas passa logo: "Foda-se". É só não ficar mastigando tal pensamento.

São sempre, mais ou menos, assim as nossas conversas. Sem censura de termos, óbvio. E claro que a gente não fica só nisso. Tem o: "Que tem de mais ver mulher pelada? Porque mulher odeia tanto isso?" ou "Fala sério a bunda de tal menina do segundo ano!" e muito mais coisas: "Não sei porque elas perguntam de qual sandália a gente gosta mais. Porque se a gente escolhe a que ela não quer, ela fala que a gente não entende disso, e vai com a outra mesmo - sendo que só diferencia no modo como cada uma tiveram suas tiras trançadas" e por aí vai... "As mulheres sempre julgam as outras. Cheio de grupinhos separados. Chega uma menina nova e bonita na sala: chove pensamentos pejorativos em cima da coitada, nem conhecem, a menina nem abriu a boca ainda e já estão tacando pedra nela". É infinita a máquina observação que gera tais munições para nossas conversas.

O post começa aqui: Estávamos os três reunidos e começamos um papo sobre Elas olharem mais para os caras que têm aliança no dedo, que têm namorada. Por que será? E, isso é verdade? Em muitas mulheres sim, pelo o que eu pude perceber, mas nem tanto como os homens pensam - se explicará mais para frente. Será que porque: "Está difícil arrumar um cara bom para namorar, como é que aquela menina arrumou esse cara. Que ele tem de bom? Algum mel tem aí!" ou "Será que eu posso ser tão atraente a ponto dele trair a namorada para ficar comigo? - aquele pensamento: "Os homens traem para ficar comigo!"".

Resolvemos fazer o teste. Como os dois já namoram, sobrou quem para pôr uma aliança no dedo por um tempo e colher os resultados? Eu. Aliás, eles falaram tanto que eu sou louco por topar fazer isso, que talvez só eu faria mesmo. Contar para toda uma sala de aula que você está namorando, sendo que isso não é verdade, é complicado pra caramba. Depois eu pude sentir que a mentira é um negócio pesado a beça. Mas era por uma boa causa, não faria mal a ninguém e era pela "ciência" - digamos assim. Peguei a aliança da minha ex-namorada e fui para o colégio com ela: "Você está namorando?"; "Você está namorando?"; "Você está namorando?"; "Você está namorando?"; "Estou, estou...". Falei o mínimo possível da minha namorada imaginária. Eu tinha que cair no papel de namorado de verdade para a experiência surtir efeito.

Criei a minha namorada: Vanessa. Mora perto de casa e estuda no Paulina Cardoso. Cursa o terceiro ano e estudou comigo na sétima e oitava série. Repetiu o primeiro ano e por isso está no terceiro e não fazendo algum cursinho como eu, ou trabalhando, ou vagabundeando sem rumo. Faculdade? Difícil! Estudante do estado, sem recursos financeiros; não muito inteligente para as disciplinas do colégio, mas uma pessoa adorável e muito, muito esperta mesmo. A sua inteligência está não no intelectualismo - não é uma pessoa culta-, mas está no seu modo viver, na sua esperteza, na sua visão de mundo. Gosta de música ruim, isso é chato, mas até que ela tem gostado quando eu canto uns versos buarquianos declarando o meu amor pela mulher que ela é.

Todo os dias, nos encontramos um beijo gostoso de manhã antes da aula, em frente de casa. E eu sigo para o ponto de ônibus e ela para o colégio. Passada a manhã e o almoço, vou para as aulas de direção e quando chegou em casa, ajeito a sala, meu quarto... e ligo para ela. Fazemos muitas coisas juntos, vemos filmes, jogamos videogame, jogos de tabuleiro, jogos de cartas, mas sempre com uma pitada de sexo em tudo isso. Ao vencedor os seus beijos e carícias merecidas.

Em casa, nesse horário, há nós dois e mais a empregada. Minha mãe e meu pai estão trabalhando e meu irmão no cursinho. Dão quatro horas e a empregada vai embora sempre deixando um sorriso maroto para nós dois, e nos amamos como se o mundo fosse apenas feito para nós. Não existe mais nada. Já namoramos em quase todos os cômodos; na rede quase caímos - foi hilário-, já tomamos banhos juntos - precisamos repetir isso, querida!-, mas no quarto dos meus pais não ousamos. Podem desconfiar: perigo! Foi ótimos descobrir que camisinha é tão barato e que ela sabe colocar de uma forma unicamente prazerosa que eu nunca imaginei existir. Para ela não faço textos bonitos de se ler, mas sopro palavras em seu ouvido sempre que posso. Ela adora aquelas pequeninas poesias que ficam flutuando pela casa e são somente dela e de mais ninguém. Antes de anoitecer nos despedimos e isso dura sempre uma hora inteira, coisa normalíssima! E todo dia é assim até o final de semana, quando saímos; nada de ficar em casa.

Namorando a Vanessa, fui para o colégio pensando nela. Apaixonado! E, além de nos amarmos, a gente transava, quer mais? Era a coisa mais linda do mundo, era puro, divino e abençoado! Tal qual o filme Lagoa Azul. Fiz o máximo para concentrar os meus pensamentos Nela e não na aliança. Tinha que esquecer que aquilo estava no meu dedo. Tentei o que pude para andar indiferente quando a isso. Logo as meninas perceberam o brilho prateado na minha mão direita e perguntaram. Eu falava que sim e não dava continuidade ao assunto Vanessa, só respondia as perguntas. Ah, bom lembrar que a Vanessa é meio macumbeira e eu não podia tirar a aliança do dedo até hoje, dia dos namorados, para que o nosso relacionamento desse certo. Isso evitava eu tirar a aliança quando alguma amiga pedisse para a ver e assim descobrir a falsidade tamanha em que eu estava envolvido. Não podia tirar, porque senão o meu relacionamento não daria certo e ainda havia prometido de pés juntos para a Vá que não o faria mesmo que o Papa pedisse.

Nos intervalos passeados no colégio, na rua, andando de ônibus, tentava observar se eu era mais olhado pelas garotas - sem fazer que elas me olhassem por eu estar olhando para elas (ainda bem que temos uma visão chamada periférica que faz-nos ver quem está com a cabeça voltada à nossa direção para verificarmos com uma lépida olhadela se os olhos também estão). Em uma semana já tinha a pesquisa concluída.

Há sim umas olhadas que você capta serem por causa da aliança, mas muito pouco e há sim mais mole das garotas com você, mas não é bem isso: O que realmente ocorre são as mudanças de pensamentos. Quando conversamos sem namorada com meninas sem namorado, sempre vêm o pensamento de algum envolvimento papapá. E isso sempre tira a espontaneidade da conversa, desconcentra e citas mais... Lógico, não é o tempo todo que acontece isso. Namorando, em ambas as partes os pensamentos mudam: "Ah, ele tem namorada nem rola..."; "Estou namorando, nada de safadezas!". Não há mais pensar em se envolver. É apenas conversar e pronto.

Eu acredito que além da visão, audição, tato, paladar e olfato, há outros sentidos e um deles é a percepção humana de pensamentos. Dá para saber se alguém te olha pensando em você ou está apenas te vendo. Quando cruzamos com alguém do sexo oposto na rua, sabemos se houve pensamentos de um no outro, ou se apenas nos cruzamos e nos vimos - pensando em outra coisa.

É isso que acontece. O homem, parando de pensar em se envolver com quem está conversando, fala Bem melhor. É ele mesmo com todas as letras! E isso faz com que as pessoas se aproximem mais dele.

Tenho que lembrar que sempre há as safadas que provocam porque o moço tem namorada, mas isso não aconteceu comigo. E há também as que provocam simplesmente por desejarem o cara, não importando se ele tem namorada ou não; o famoso: "quem liga?".

É mais uma questão de "no quê está pensando" do que qualquer outra coisa. É uma pena não podermos ter controle disso. Entretanto, isso faz nos entendermos melhor, como eu estou me entendo melhor agora. Nesse período de experiência aliançativa, eu me aproximei mais das meninas, mas tudo por causa do meu pensar, por causa de menores medos e nenhuma nóia. Essa história do pensar pode ser mais aprofundada filosoficamente por qualquer psicólogo, mas eu não vou fazer isso aqui. Filosofe por si!

Agora eu vou chegar na aula segunda-feira sem aliança e com esse texto na mão. Se perguntarem: "Eu terminei. Escrevi sobre, olha." R: "Puta, Vitor o tamanho do negócio. Vou levar os dois intervalos para ler, não pode me contar como foi? Você está bem?". Eu: "Era mentira. Leia!".

PS: Tem uma foto da Vanessa aqui.

Um comentário:

Valter Hugo Muniz disse...

Esse realmente não é vc!!! É uma transição adolescente para um possível homem GENTE GRANDE...
Os relacionamentos são aquilo que fazemos ser... as coisas, carícias, beijos são reflexos de um AMOR com A maiusculo, que envolve muita doação espiritual.. senão o outro vira uma BONECA INFLAVEL VIVA para o nosso prazer...
AS pessoas têm alma... e nós temos lembranças q marcam à vida, que só podem ser purificadas, na medida em que se passa a ver o outro como DOM e entendermos a NOSSA RESPONSABILIDADE perante a felicidade e a SANTIDADE do outro...

Ao terminar de ler A Natureza da Mordida

Foi a mesma sensação de parar com o marcador página na mão após acabar um livro. Eu não sabia onde colocar meu sentimento após aquele final....