--Muito boa noite, moça interrompida! (tira o chapéu)
--Boa noite....
--O que tão formosa dama faz por esse canto da cidade? (leva o chapéu ao colo)
--Nada de mais e você?
--Digamos apenas que eu estou à procura... Está acompanhada? Pegue meu braço.
--hehehehehe. Que formalidade rs
--Digna de anos de ouro da humanidade, minha bela jovem.
--heheheheh
--Gosta de dançar? Poderia me acompanhar a um local de fina diversão?
--hehehehe
--Vamos, não se acanhe. Vai ser inesquecível, eu lhe prometo.
--huahuahuahua... ai ai...
--Ora, não faça charme... A Senhorita já tem muito e inteiramente encantador. Me acompanhe, vamos para ver estrelas.
--hehehehehe......
--Não fique vermelha. Entenderei tão gracioso riso como um "sim" puro e doce. O 'sim' que vem de você. Isso vamos.
(e saíram pela porta, estão na calçada da cidade)
O moço continua:
--Está vendo aquele senhor? Todos os dias ele bota o lixo na rua no mesmo horário. Saco pequeno, do mesmo supermercado e sempre com o mesmo nó. A mulher dele faz o nó e o manda levar à rua. Sempre na mesma lata, mesmo horário e o sol está todo dia no mesmo lugar.
--hehehehe ....
--Oh, não! Meu Deus! Não!
--??
--A bola está indo para a rua, o caminhão está vindo, a criança vai...!
(Dispara correndo e salva a criança deixando-a com a mãe muito agradecida, e sai do local voltando para a moça, buscando anonimato)
--huahuahuahuahua
A moça, estupefata, olha espantada para ele que responde:
--É aqui chegamos!
Cumprimenta o vigia da entrada que logo abre caminho para o novo casal e sorri malicioso para o nosso herói

Passando os dois pelo bar, ele pega uma Rosa que estava num vaso com água, arruma o cabelo cheio de brilhantina sem tirar os olhos que o tempo todo percorrem aquele fascinante rosto feminino. Faz o pianista parar a música e junta seu corpo ao da moça, num lapso!

À primeira piscada de olho do jovem, o pianista inicia. Um tango argentino que pega a moça de surpresa. Nos escuros do bar uma luz os ilumina, os dois em claridade destacados e o mundo na sobra, oculto. Eram somente eles. E o pianista. Mas a moça não sabia dançar tango argentino! Quem sabia?!

Ele a conduz, devagar no começo. Mas a música cresce, fica mais forte e rápida ao seu decorrer dos compassos... A Jovem é inteligente, aprende rápido e se vira bem. O jovem também, sabia conduzir como ninguém. Alguns o tinham como Bond. James Bond. Mas era muito jovem para Bond mesmo com a expressão na face carregada de total experiência com as mulheres, não enganava ter mais de 19 anos.

Ainda estão dançando. Em um dos três ápices da música, no segundo, a Rosa é trocada de boca. Passa da dele para a dela. Os lábios se tocam por um instante, tão leves que de longe não se pôde ver. O que não impediu da moça arrepiar-se inteira e quase derreter nos braços dele por falta de forças. Mas uma nota grave, forte, sólida a acorda que volta séria no passado firme da dança. Pareciam estar na maior e mais vívida boate de Buenos Airies. No terceiro ápice, a flor volta para quem a colheu do balcão e os lábios se raspam de propósito. As quatro pernas tremem, mas outro acorde no piano as chama de volta à dança forte! Os corpos cobertos de desejos vibram como as cordas do piano, junto delas; estão cada vez mais próximos... A flor é jogada num ato quase violento aos pés do pianista que se prepara para o compasso final da música crescente. Os braços percorrem as costas, o joelho feminino sobe raspando o homem, os olhos querem estar logo fechados para enxergarem as estrelas prometidas e ao sentirem a respiração um do outro, eles se fecham. E é como o surgimento do universo, uma explosão sonoramente afinada, luminosa e criadora que faz com que tudo gire ao redor onde não há tempo, distância ou exageros.
As línguas estão satisfeitas após a viagem sideral em sensações as quais não puderam ser sonhadas nem pelo mais erótico dos homens, nem pelas mais eróticas Deuzas.

-FIM-

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Bustamante

Texto que escrevi e li como orador dos formandos de 2008 do curso de Comunicação e MultiMeios da PUC/SP

Tema da redação: Heróis reais